domingo, 4 de setembro de 2016

“DA PASSAGEM DO SENHOR JESUS NO MUNDO”: O ARQUIVO METROPOLITANO DA ARQUIDIOCESE DE NATAL (2006-2016)

Por Cláudio Correia de Oliveira Neto
Historiador Licenciado- UFRN
Técnico de Nível Médio Integrado em Controle Ambiental- IFRN
correia.claudio@rocketmail.com
ARQUIVOS ECLESIASTICOS
Os Arquivos Eclesiásticos, ou Arquivos Religiosos, ou Arquivos da Igreja, são o conjunto de documentos produzidos ou recebidos por instituições religiosas, sendo de natureza privada. Estes arquivos são grandes fontes de informação por conterem documentos relativos a nascimentos, casamentos, óbitos, dentre inúmeras outras informações que contribuem para a pesquisa de diversas áreas e setores interessados da sociedade.
            A documentação pertencente a Igreja traz em si toda a complexidade da instituição. Cabendo então aqui destacar algumas características que facilitem a compreensão acerca dos Arquivos Eclesiásticos. Primeiro é importante notar a vastidão temporal do cristianismo católico que já existe há mais de dois mil anos, dando a ele um experiência temporal em relação as questões humanas incomparável. Segundo, é relevante observar também as diferentes escalas que a Igreja atua, ela é ao mesmo tempo global e local. A vasta temporalidade e espacialidade do catolicismo dá a ele uma visão distinta sobre o homem e a sociedade. Além disso um outro aspecto que dele se ressalta é a simultaneidade dos aspectos políticos, sociais, econômicos e religiosos. Por uma questão metodológica as pesquisas cientificas sempre privilegiam um dos aspectos citados, contudo na visão da Igreja tudo isso está imbricado e em muitos casos são indissociáveis. O elo conector é a espiritualidade, a missão de salvação universal a faz se inserir em todas as classes e aspectos da vida. Não podemos perder de vista o caráter místico da instituição e de sua documentação, pois só assim podemos compreender, por exemplo, os motivos que levam a Igreja a sacrificar alguns de seus interesses em prol de sua missão.   
            A estrutura eclesiástica também é um ponto relevante para compreender a produção documental dos Arquivos Eclesiásticos. A Igreja é una e diversa, ou seja, embora constitua uma unidade institucional, dentro de si a uma multiplicidade de grupos e interesses que em alguns pontos convergem e divergem. É uma Igreja em Cristo com vários modelos possíveis de serem que coexistem institucionalmente. E cada uma destes paradigmas agira no mundo a partir de seu projeto e intepretação sobre a vivência católica, sem que com isso se desvincule da Santa Sé. Mas isto só é possível pois no regime hierárquico da instituição é permitida uma liberdade autárquica, que serve para alcançar ao maior e mais diversos públicos possíveis, na lógica da salvação universal e propagação da mensagem de Cristo.
            Na ótica teológica os Arquivos Eclesiásticos também possuem uma pastoral, que é um conjunto de atividades que a Igreja realiza no intuito de dá continuidade as ações de cristo na terra. O papa Paulo VI em sua Alocução aos arquivistas eclesiásticos em 26 de setembro de 1964 deixa claro que a missão espiritual dos arquivos é o de registrar a passagem do senhor Jesus no mundo. E deixa claro que a preservação documental é uma maneira de culto ao Cristo. A documentação é um rastro de Jesus Cristo que serve a um proposito evangelizador e uma referência temporal para as ações da Igreja. 
É na luz desse entendimento que o Código de Direito Canônico (CDC) coloca como obrigação a disponibilização do acervo para consulta. Há um entendimento que a memória coletiva, a memória institucional e a memória individual se cruzam nos Arquivos Eclesiásticos, e que portanto é de interesse coletivo o livre acesso a documentação. Porém por se tratar de uma instituição privada há uma demanda por selecionar o que é de público e o que é de acesso privado e secreto. Embora o CDC estabeleça critérios e normas, cabe ao Arcebispado determinar o que será disponibilizado ao público geral, o que coloca uma série de avaliações subjetivas e interpretações. Auxiliando neste processo de seleção a lei n. 8.159, de 08 de janeiro de 1991, art. 16 coloca que devido à importância social e histórica da documentação guardada pela Igreja, os registros civis de arquivos e entidades religiosas produzidos anteriormente à vigência do Código Civil - implantado nos primeiros anos da República, cabendo a Igreja, no Império, a responsabilidade de registrar de forma identitária a população em seus livros – ficam identificados como de interesse público e social.
HISTÓRIA DO ARQUIVO METROPOLITANO DA ARQUIDIOCESE DE NATAL
A Igreja Potiguar na segunda metade do século XX passa por uma experiência sui generis que modifica todo o pensamento católico. Tal mudança estava alinhada com as ideias progressistas da Santa Sé como um todo no plano internacional. A produção historiográfica que estuda a Igreja desse momento histórico afirma que durante o período há a consolidação e amadurecimento da Igreja Popular. Neste recorte temporal a Igreja Brasileira é apontada como a mais progressista. Graças as experiências acumuladas no período anterior há uma ação mais assertiva e delimitada em relação à política. O constante embate interno entre reformistas, progressistas e conservadores no seio da Igreja que marcou as décadas de 1950 e 1960 dá lugar a uma harmonia de forças entre os grupos que compõem a instituição religiosa. Há também um combate explicito entre o Regime Militar e Igreja que ocorreu no período de 1964-1972.  A pressão de Roma e do Conselho Episcopal Latino-Americano (CELAM) faz com que um conjunto de teólogos brasileiros delimitem melhor a relação da Igreja com a Política A conclusão teológica daquele momento histórico era apoiada na Doutrina Social da Igreja, que afirmava que o papel da Igreja na Política era promover a Educação Política das massas, ou seja, deveria encorajar a mudança e a participação popular sem assumir o controle do processo. À medida que ocorria a abertura política e instituições democráticas (Ordem dos Advogados do Brasil, Associação da Impressa do Brasil e etc) se fortaleciam, dando uma polifonia contra a Ditadura, a Igreja se envolvia menos diretamente na política, fortalecendo a sociedade civil.
É nesse contexto sócio históricos que Natal vira protagonista com o  Movimento de Natal (1943-1964) que é a primeira iniciativa da igreja no enfrentamento prático as desigualdade socais;  as experiência das  Irmãs Vigárias (1964), primeira vez na história do catolicismo que mulheres assumem a gestão de paróquias;  a Campanha da Fraternidade (1965); o Programa de Educação Política (1972-1988), que tenta construir uma nova cultura política no Rio Grande do Norte entre tantas outras iniciativas. Todo esse rico processo deu origem a um belo acervo que foram se acumulando ao longo do tempo sem serem organizados.
É no ano de 2006 que a Arquidiocese de Natal firma um convênio com o Departamento de História da Universidade Federal do Rio Grande do Norte, com o objetivo de organizar e disponibilizar ao público. O primeiro passo foi a realização de um diagnóstico que apontou para as péssimas condições de guarda documental. Em seguida começou a fase de higienização documental, descrição documental e uma reforma no espaço físico. Durante está etapa o Arquivo Metropolitano da Arquidiocese de Natal (AMAN) começou a receber bastante material, o que fez com que a higienização só fosse concluída em 2013. Nos anos de 2014 e 2015 começou a classificação e ordenação da documentação que se encontra no momento em fase final.
O Arquivo Metropolitano da Arquidiocese de Natal conta com um rico e vasto acervo documental sobre ação da Arquidiocese de Natal no auxílio a comunidades carentes. A documentação abrange as atividades administrativas, pastorais e eclesiásticas com recorte temporal que vai de 1889 até 2010, livros de registro dos séculos 17 -19, e a coleção dos periódicos do Jornal “A Ordem” e “L'Observatorie Romano” das décadas de 1930-1960.  São documentos de diversas tipologias e que registram a atuação da Igreja, numa média de 350 mil documentos, distribuídos em 628 caixas-arquivos.
ESTRUTURA FÍSICA DO AMAN
            O espaço físico do AMAN é composto de sala de consulta, sala suja (área de limpeza documental) e o arquivo em si.
DESAFIOS DA GESTÃO DOCUMENTAL NO AMAN
            Os desafios da Gestão Documental no Arquivo Metropolitano da Arquidiocese de Natal são muitos, a começar pela falta de Recursos Humanos para dá conta da extensão do acervo e concluir o trabalho de organização. Outra questão é a dificuldade de integração dos setores da Cúria Metropolitana da Arquidiocese de Natal, tendo em vista que eles trabalham de forma hierárquica porém independentes. Há ainda uma dificuldade de implantação de um política interna de valorização do AMAN, que ainda é visto com um local a parte da instituição. Outro obstáculo é atrair público para consultar o acervo, algo que ajuda a dá visibilidade e a valorizar o setor. Existe também por parte de alguns membros da Igreja de verem o trabalho realizado no AMAN enquanto uma pastoral.

LOCALIZAÇÃO E AGENDAMENTOS:
O ARQUIVO SE ENCONTRA NO SUBSOLO DA CATEDRAL METROLITANA DE NATAL , AVENIDA DEODORO DA FONSECA, TIROL, NATAL, RIO GRANDE DO NORTE. FUNCIONA DE SEGUNDA A SEXTA DAS 8:00- 12:00 E DAS 13:00-17:00. AGENDAMENTO DE PESQUISAS E VISITAS PELO TELEFONE: (84) 36152800

BIBLIOGRAFIA
ARQUIVO PÚBLICO DO ESTADO DE SÃO PAULO. Política Pública de Arquivos e Gestão Documental do Estado de São Paulo. 2 ed., rev. e ampl. São Paulo: Arquivo Público do Estado, 2014. 248 p.
BENTO, João Paulo. As especificidades das Bibliotecas e Arquivos eclesiásticos no Brasil: apontamentos históricos para uma política de gestão integrada. História e-História, Campinas, 8 mar. 2012. Disponível em: <http://www.historiaehistoria.com.br/materia.cfm?tb=alunos&id=429>.
BERNARDES, Ieda Pimenta; DELATORRE, Hilda (Coord.). Gestão Documental Aplicada. São Paulo: Arquivo Público do Estado de São Paulo, 2008. 58 p.
CAMARGO, Cândido Procópio Ferreira de. Igreja e Desenvolvimento. São Paulo: CEBRAP, 1971.
CÓDIGO DE DIREITO CANÔNICO, promulgado por João Paulo II, Papa. 4 ed. rev. Lisboa: Conferência Episcopal Portuguesa, 2007. 460 p.
FERRARI, Alceu. Igreja e Desenvolvimento – O Movimento de Natal. Natal: Fundação José Augusto, 1968.
LOPES, Uberdan dos Santos. Arquivos e a organização da Gestão Documental. Revista ACB, Santa Catarina, v. 9, n. 1, 2004. p. 113-22. Disponível em: <http://revista.acbsc.org.br/racb/article/view/412/523>.
MAINWARING, Scott. Igreja Católica e Política no Brasil (1916-1985). São Paulo: Brasiliense,1989.
MONTENEGRO, Jeferson. Os Arquivos Eclesiásticos como Fontes para a Pesquisa Genealógica no Vale do Rio dos Sinos no Rio Grande do Sul. 2012. 59 f. Monografia (Graduação em Arquivologia) – Faculdade de Biblioteconomia e Comunicação, Universidade Federal do Rio Grande do Sul, Porto Alegre.
PINHEIRO, Antônio César Caldas. A documentação eclesiástica e o Código de Direito Canônico. Flash UCG, Goiânia, abr. 2006. Disponível em: <http://www2.ucg.br/flash/artigos/060407documento.html>.
WANDERLEY, Luiz Eduardo W. Educar para transformar: Educação Popular, Igreja Católica e Política no Movimento de Educação de Base. Petrópolis: Vozes, 1984.

COMO REFERENCIAR ESTE TEXTO:
OLIVEIRA NETO, Cláudio Correia de. “Da passagem do Senhor Jesus no Mundo”: O Arquivo Metropolitano da Arquidiocese de Natal (2006-2016). Natal, 03 set. 201

terça-feira, 18 de agosto de 2015

A MORTE DA IDADE MÉDIA

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Raimundo Hélio da Silva 
Graduado em História Licenciatura- UFRN
Graduando em História bacharelado - UFRN

Camilla Kaciane
Graduada em História - UFRN
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         Na Idade Média, a vida dos homens é regida pelo poder absoluto de um único Deus, o Deus cristão, que é uma conjugação dos deuses pagãos. O cristianismo não é puro de origem, sua alma tem uma essência judaica.
         No medievo, a história humana é resultado da vontade divina. Assim, tudo deve passar pelo crivo da Igreja. Todos os comportamentos medievais eram advertidos como pecaminosos, o corpo era visto como receptáculo do pecado, dessa forma, tudo que dava prazer ao corpo era considerado impuro, impróprio.
         Por isso, a figura feminina é desprezada. Visto que, o corpo feminino é associado ao pecado, desvio. Alguém precisava ser responsabilizado pelo pecado original, e nesse momento “Eva” cumpre esse papel. O fato é que, numa sociedade patriarcal como a do medievo, há uma inferioridade feminina. As mulheres precisam de um modelo, e é aqui que nasce o culto mariano, a exaltação a figura de Maria.
         O declínio da arte nessa época, por exemplo, das esculturas, se deu justamente porque a imagem do belo não era algo que interessava a Igreja. A arte vai ser utilizada unicamente por um caráter social, como forma de evangelização.
      Era preciso então se manter fiel ao cristianismo. A salvação se dava pela rejeição ao efêmero, transitório, mundano. A felicidade terrena era desprezível e a eternidade representava a felicidade maior. No mundo medieval então, o medo da morte vai ser algo inexistente. A morte é algo corriqueiro, cotidiano. A morte não é sinal de finitude.

1. A MORTE NÃO É O FIM

      Desde os tempos mais remotos o homem convive com seus medos, que os acompanham nos momentos mais insólitos, momentos que ficaram gravados em sua memória, e se replicam nos seus descendentes.
      Entre tantos medos, o maior deles seria o momento do Juízo Final, este enigmático instante, derradeiro, imaginado e nunca vivido, que tanto o homem adia. Mas, no seu íntimo o anseia. O consolo da morte é sem dúvida abrandado pela espera e a promessa de ser o escolhido.



      Durante vários períodos da história, a humanidade confrontou esses momentos de temores e incertezas. Faz parte desses períodos a Idade Média, o meio termo temporal, não por acaso, mas, pelo fato de pontuar um momento de indecisões e de esperas. Como afirmou Franco Júnior, “Uma noite de 1000 anos!”. É nesta escuridão milenar que o medo toma forma. Não antes sem um julgamento justo!
Para os medievais, diferentemente do que acreditavam os gregos, a memória após a morte se torna “alma” que percorrerá muito caminhos árduos.

2. JULGAMENTO DERRADEIRO: MIL ANOS DE ESPERA

         A espera da redenção é longa e inquietante, muitos obviamente não viram e nem verão o dia tão esperado, mil anos de depósito em uma poupança sem muitas garantias de recolher o total aplicado com juros, essa usura era bem vinda e permitida.
       A Igreja como fiadora pregava que a única garantia de um paraíso só podia ser dada a quem pagasse as prestações cuja moeda era à obediência incondicional, à fé no Deus único, onipotente, onipresente e onisciente, pobreza, caridade e a prática de seus dogmas sem questionamento, um preço razoável a seu ver para quem almejava o perdão de seus pecados e a vida eterna no paraíso.

      Nas épocas em que a Europa passava por uma superlotação devido à expansão dos povos estrangeiros ditos “bárbaros”, cada indivíduo que nascia era uma boca a mais para alimentar, só depois é claro, que a dispensa do senhor dono da terra fosse abastecida, esta era a prioridade.

Jamais a Europa esteve tão unida quanto nos séculos XII e XIII, e essa unidade devia-se ao fato de os europeus daquele tempo tinham o sentimento de construir um só povo, o povo cristão, o qual, no plano institucional, era enquadrado por dois poderes superiores de controle: o do papa e o imperador (DUBY, 1998: 67).

       Nesse momento, o homem europeu convivia com vários medos: o medo do outro homem, do estrangeiro, de quem tinha religião diferente da católica, o medo do judeu, do mulçumano, o medo da fome, do além, de não ser o escolhido na hora do juízo, o medo da danação eterna no inferno.
Mas, nenhum o atormentava tanto quanto o medo das “pestes”. 
Segundo Duby, muitas afecções eram denominadas como peste, entre elas a lepra e a peste negra (peste bubônica).

        A epidemia determinou uma elevação geral do nível de vida. Ela livrou a Europa de um aumento de população. Durante meio século, a peste permaneceu no estado endêmico, com retornos em quatro ou cinco anos, até por volta de 1400, quando o organismo humano finalmente desenvolveu anticorpos que lhe permitiram resistir. A cada trégua, a vida recomeçava ainda com mais intensidade. [...] O macabro instala-se na literatura e na arte. Propagam-se imagens trágicas, o tema do esqueleto, da dança macabra. A morte está em toda parte (DUBY, 1999: 86-87).





        A Igreja soube se utilizar dessa situação muito bem, para ela foi excelente, um ótimo exemplo de punição para os infiéis, o que poderia ter sido uma desgraça tornou-se sinônimo de equilíbrio, de tempos em tempos há um aumento populacional até que vem um ceifeiro e faz seu trabalho para manter os pratos da balança horizontais e equilibrados.

3. A DECANTAÇÃO DOS PECADOS: PARAÍSO OU INFERNO, O MEIO TERMO, O NASCIMENTO DO PURGATÓRIO (SÉCULO XII)

         Partindo do “Princípio da dualidade” que indaga o homem há vários séculos nas suas decisões, comparações e opções de escolha, tudo tem o seu oposto para dar significado à existência ou a aniquilação dos correlatos. Para Heráclito de Éfeso, século V a.C., o princípio se baseia na dialética, “[...] segundo a qual tudo no mundo se autodestrói a partir de seu contrário, o bem se opondo ao mal, a saúde à doença, a riqueza se opondo à pobreza, a vida diante da morte”. Segundo Le Goff:

O além é um dos grandes horizontes das religiões e das sociedades. A vida do crente transforma-se quando ele pensa que nem tudo fica perdido com a morte. [...] Foi como terceiro lugar que o purgatório se impôs. Das religiões e das civilizações anteriores, o cristianismo herdara uma geografia do além; tal - o shéol judaico - e as noções de um universo depois da morte, um assustador e o outro ventuoso, como o Hades e os Campos Elísios dos Romanos, ele escolherá o modelo dualista [...] (1995: 16-18).

         Dessas primícias dialéticas eclodiu na doutrina cristã a partir do século XII um meio termo, um centro imaginário que poderia levar a outras periferias (paraíso ou
inferno), mas, antes haveria o Juízo Final, o julgamento justo para os merecedores e para outros nem tanto, os gozos e prazeres infinitamente inimagináveis que o vivente terreno jamais faria concepção em seu âmago de um lugar paradisíaco o qual todas as dores, ausências, fomes, sedes e desarmonias sua, inclusive dos seus inimigos mortais seriam aplacadas e saciadas, afinal, todos seriam criaturas de um mesmo Criador, portanto, irmãos. Contrapondo este Paraíso, o seu correlato, o submundo, o mundo inferior, o Inferno.



CONSIDERAÇÕES FINAIS

         Numa sociedade como a medieval, a Igreja dita às regras do jogo. Os indivíduos terão opiniões comuns em relação à morte e ao além. Como afirma Le Goff, “A realidade é a cristandade. É em função dela que o cristão da Idade Média define o resto da humanidade e se situa em relação aos outros” (1983: 179). Era preciso explicar aos vivos o sentido de sua morte.

Com a ascensão da cristandade, a Igreja se introduz entre o indivíduo, a família e a cidade. O clero afirma ser o grupo mais capaz de preservar a memória dos mortos. Uma sólida doutrina cristã sobre o além, pregada pelo clero, esclarece os vivos sobre o sentido da morte do defunto. As celebrações tradicionais no cemitério permanecem habituais, porém já não bastam. Oferendas, no momento da eucaristia, garantem que durante as orações o nome dos mortos seja lembrado em toda a comunidade cristã apresentada como a mais vasta parentela artificial do crente. Festas anuais oferecidas em memória dos mortos e em benefício de suas almas – oferecidas, como sempre, em favor dos pobres [...]. Pois, a igreja, e não mais a cidade, celebra a glória dos desaparecidos. E, uma vez introduzida no recinto da basílica, a democracia do pecado estende-se para além do túmulo de modo inconcebível para os pagãos (ARIÈS; DUBY, 2002: 272).

       É necessário inverter a perspectiva tradicional, aquele período histórico em que costumeiramente é de forma pejorativa visto como símbolo de obscurandade, trevas, um momento pacato, sem desenvolvimento: a Idade Média, deve ser esquecido como tal, para ser lembrado como uma etapa no surgimento e afirmação do Ocidente cristão.




REFERÊNCIA BIBLIOGRÁFICA

ALIGHIERE, Dante. A Divina Comédia. Tradução de Gustavo Duré. São Paulo: Abril Cultural, 1979.
ARIÈS, Philippe. A representação do Juízo Final. In: ______. História da morte no Ocidente: da Idade Média aos nossos dias. Tradução de Priscila Vianna de Siqueira. Rio de Janeiro: Francisco Alves, 1977. p. 30.
ARIÈS, Philippe; DUBY, Georges. História da vida privada: do Império Romano ao ano mil. São Paulo: Companhia das Letras, 2002. p. 259-283.
BASCHET, Jérôme. Ordem senhorial e crescimento feudal. In: ______. A civilização feudal: do ano mil à colonização da América. São Paulo: Globo, 2006. p. 98-142.
DELUMEAU, Jean. História do medo no Ocidente (1300-1800): uma cidade sitiada. Tradução de Maria Lucia Machado, tradução das notas de Heloisa Jahn. São Paulo: Companhia das Letras, 1989.
DUBY, Georges. Ano 100, ano 2000: na pista de nossos medos. Tradução de Eugênio Michel da Silva e Maria Regina Lucena Borges-Osório; revisão de texto em português de Ester Mambrini. São Paulo: Fundação Editora da UNESP, 1998.
LE GOFF, Jacques. A bolsa e a vida: o Purgatório. In: ______. A bolsa e a vida: economia e religião na Idade Média. Tradução de Roberto Silveira; revisão técnica de Hilário Franco Júnior. São Paulo: Brasiliense, 2004. p. 65-82.
LE GOFF, Jacques. O Terceiro Lugar. In: ______. O nascimento do Purgatório. 2 ed. Tradução de Maria Fernanda Gonçalves de Azevedo. Portugal: Editorial Estampa, 1995.
LE GOFF, Jacques. O imaginário religioso da Idade Média. In: ______. A Idade Média explicada aos meus filhos. Tradução de Hortência Lencastre. Rio de Janeiro: Agir, 2007. p. 89-97.
LE GOFF, Jacques. A civilização do Ocidente medieval. Lisboa: .Estampa, 1983. p. 179-186.

sábado, 11 de outubro de 2014

NATAL ONTEM



     AS IMAGENS MOSTRA UMA NATAL QUE NÃO PODE SER DEVORADA PELO "ESPECTRO" DO ESQUECIMENTO. NÃO QUE ESQUECER SE FAÇA DESNECESSÁRIO, POIS NEM TODA LEMBRANÇA É AGRADÁVEL NO SEU SENTIDO.

      NO ENTANTO, UM EXERCÍCIO MNEMÔNICO FAZ PARTE DE UM REVIVER HISTÓRICO. POIS SÓ ASSIM ATIVANDO OS SENTIDOS É QUE A HISTÓRIA TERÁ EXERCIDO O SEU PAPEL NA TENTATIVA DE PRESERVAR ESPAÇOS MODIFICADOS NO SEU CORPO INICIAL. ESCONJUNRANDO O ESQUECIMENTO. 

           PORTANTO É CRUCIAL VER, OUVIR, SENTIR E AINDA RESPIRAR ESTES ESPAÇOS DE MEMÓRIA. 

            FAÇAMOS JUNTOS, ESTE EXERCÍCIOS AO SOM DO LÍRICO SOPRAR DE HISTÓRIA EMITIDO AOS NOSSOS OUVIDO ACALENTADOS AO COLO DE CLIO. FILHA DE MNEMOSINE (MEMÓRIA) PARENTE DISTANTE DE LESMOSINE (ESQUECIMENTO ABSOLUTO).




Por: Raimuno Hélio da Silva

terça-feira, 23 de setembro de 2014

A condição feminina no medievo

Poliana C. Martins S. D.
           
            Ao discorrermos acerca da condição feminina no medievo nos deparamos com um fato deveras lamentável, pois ao falar das mulheres neste período e sendo o ofício do historiador baseado em documentos e empiria, não se ter relatos provenientes das mesmas. E ainda lamentável, que as fontes das quais dispomos venham de uma classe especificamente, de elevadas camadas da sociedade medieval, de início, da classe cavalheiresca, e em finais da Idade Média, da burguesia das cidades. Fontes estas dotadas de influência e deformação das informações (Zuber). Mesmo diante de tais obstáculos, de tal fraqueza documental, o historiador realiza um esforço maior para se aproximar destas que tiveram suas vozes abrandadas.

            Diante de todo esse silêncio involuntário, e mesmo sabendo tratar-se de uma questão de seu tempo e espaço, podemos nos aproximar, mesmo que minimamente, da triste condição imposta ao sexo feminino e ainda assim ouvi-las através de todo esse cerco que lhes envolve, que lhes poda, limita,  mesmo assim é possível ouvi-las e vê-las, aos poucos tomando o espaço que há muito deveria ser seu. Não é a toa que tenha havido toda uma mobilização masculina para mantê-las sob seu comando, mesmo deste modo, elas punham medo, receio, chamada de traiçoeiras, colocando em risco toda uma reputação, em se tratando de duas famílias.   
            O lugar ocupado pelas mulheres no medievo, ao menos no ideal de seu tempo, é junto à família, primeiramente sob a custódia do homem mais próximo no parentesco – pai, irmão, entre outros – e logo mais à sua família adquirida através do matrimônio. O objetivo imposto a mulher é o de casar-se e procriar, dar herdeiros e continuidade a linhagem da família. Pode-se pensar, ao menos hoje, que a mulher era uma moeda de troca, pois, ela, além de se guardar e se preparar com a finalidade de um casamento, preferencialmente um bom casamento, ela tinha um papel apaziguador e conciliador entre famílias brigadas, por guerras ou não, isso é claro, numa classe mais abastada, nobre,  a qual obtemos maiores informações. Ela poderia significar um patamar mais elevado para uma classe aristocrática, quando esta (tal família) se encontrava em falência, claramente uma troca, de um lado uma família aristocrática com um nome significativo dentro daquela sociedade, de outro um homem (ou família) que ascendeu economicamente e se quer reconhecido e se inserir pela sociedade dominante. Mesmo não tendo a voz devida, não se pode dizer que a mulher não teve um papel importante, mesmo diante de toda uma dominação masculina. Diante de algumas dificuldades, a exemplo a “caristia” do dote, a moça se via a cair de sua elevada posição social, não só em relação ao nome  mas ao poder aquisitivo da família em que se encontrava através do matrimônio, como a mulher era criada para casar e procriar, sua família de parentesco sanguíneo próximo se via com um peso a ter de se livrar em dado momento, tendo esta que se casar com o partido que lhe fosse encontrado, tendo de conviver muitas vezes, em condições menos elevadas que as de costume. Há em certo momento do medievo, um processo involutivo das condições financeiras das mulheres, que antes tinham seu próprio dote e podia usá-lo, passa a não ter nenhum, apenas o que é dado ao seu esposo e sendo este a parte que lhe cabe da herança de sua família patriarcal, quando viúvas não poder repassar sua riqueza a mais ninguém, sua autonomia econômica era extremante limitada ou inexistente.
            O uso de seu corpo e seus bens é muito claro, o que ela leva consigo ao matrimônio não é de seu domínio, seu corpo é vigiado e controlado para um fim, o de dar herdeiros àquela família a qual passara a pertencer.
            A angustia clerical para com o sexo é tamanha, impondo todo um conjunto de regras que limitem o uso de seus corpos e prazeres, havendo um temor muito maior sobre tal questão, lhe impondo a finalidade apenas de continuação de linhagem, mesmo que estes quebrassem com suas próprias regras a cerca do sexo feminino. Assim como para os demais do sexo masculino, que eram cercados de desconfiança, receio, tomados por uma angustia, sensação de autoridade doméstica mal sucedida, aspecto de grande valor ao homem medieval. Tal caráter duvidoso atribuído ao sexo feminino era ainda maior e visto com maus olhos e mesmo imbuídos de total desconsideração daquelas que se viam em condições fora de um ambiente familiar, seja qual for o motivo, estas não se viam bem alocadas dentro de tal sociedade. Infidelidade masculina era aceitável, mesmo que não fosse adequada, porém ao sexo feminino era inconcebível, mesmo se esta sofrera injustiças, por ainda mais ironia do “destino”, eram julgadas e excluídas de um ambiente comum da sociedade “ideal”. Prazeres, autonomia, posição, consideração, esses itens eram desconhecidos ou distantes ao feminino.

            Restando-lhes o ambiente doméstico familiar, preenchidos com atividades próprias de sua educação, como fiação e costura, a tomar conta de seu ameaçador tempo e até mesmo contribuindo – anonimamente? – para a economia familiar, compondo seu sustento. A condição feminina na Idade Média foi de fato alvo de discussões, de múltiplas justificações, não foi de modo algum uma condição aceita pacificamente, de um modo ou de outro foi indagada, questionada, ou mesmo rejeitada. Mesmo não ouvindo-as diretamente, essa noção não nos é negada, diante dos fatos contidos nas fontes e das coerentes suposições próprias de um historiador.



Referências

DUBY, Georges. O casamento na sociedade da alta idade média ______in:  Idade Média, idade dos homens: do amor e outros ensaios. Tradução: Jonas Batista Neto. São Paulo: Companhia das Letras, 1989. p. 11-27.
ZUBER, Christiane Klapisch. A mulher e a família.


domingo, 14 de setembro de 2014

UM POUCO DE HISTÓRIA: GENTI(L)O OU BÁRBARO?

GENTI(L)O OU BÁRBARO?


“[...]  Nos deram espelhos. Vimos um mundo doente.
Tentei chorar, mas não consegui [...]” – Renato Russo

Raimundo Hélio da Silva
Graduado em História Licenciatura – UFRN
Graduando em História Bacharelado - UFRN
E-mail: raimundo.helio@bol.com.br


A teoria da dispersão Beringia seria uma das que mais se defende, a qual teria dado origem aos grupos humanos americanos do norte e do sul, obviamente em especial os homens localizados no espaço do que seria posteriormente denominado de Brasil.


O presente trabalho não está focado em fazer uma retrospectiva de como o homem povoou o planeta e sim saltando no tempo, especificamente entre os séculos XVI e XVII (1597-1654), neste Novo Mundo de vasto litoral o que se denominou posteriormente de Nordeste Brasileiro, destaque para um espaço específico a Capitania do Rio Grande.     A colonização da Capitania do Rio Grande teve seu início por volta de 1597 quando a cidade de Natal passou a existir oficialmente no papel conforme decreto do Rei de Portugal Felipe II, questão que posteriormente seria debatida por Cascudo em a História da Cidade do Natal (1947), mas, esta é outra História. No momento o foco é analisar um pouco do que tem produzido a respeito dos nativos que aqui habitavam os donos da terra, cuja aproximação do colonizador é bastante questionada, mas era o modelo praticado pelos europeus para justificar a posse e a povoação do Novo Mundo, para cristianizar e explorar os recursos naturais.
O que se pretende discutir é como este pedaço de terra nova foi desbravado e a que preço? Diferenças culturais às vezes entram em choque e o resultado de tamanha diferença na maioria das vezes, é o confronto no momento do contato, primeiro: o de línguas depois o mais questionado, o religioso. O “bárbaro[1]” não se deixava assimilar, o resultado é a guerra. Segundo Geronazzo (2009). “Se existe uma guerra justa, há de ser aquela travada contra o próprio demônio. E era uma guerra assim que os portugueses acreditavam estar lutando nos sertões brasileiros.” Se é que se pode justificar uma guerra tão desigual belicamente falando, flechas contra canhões e arcabuzes[2]? Quem venceria a guerra?




[1].Bárbaro - bár. ba.ro - adj (gr bárbaros) 1 Relativo aos bárbaros, povos antigos. 2 Que não tem civilização; inculto, rude, grosseiro. 3 Atroz, brutal, desumano, cruel.
[2] Arcabuz - ar.ca.buz : sm Forma antiga de arma de fogo portátil, de fecho de mecha, inventada nos meados do século XV, que se disparava apoiada sobre uma forquilha, à qual era fixada com um gancho (haken).


         Durante o Domínio Holandês (1633-1654), a Capitania do Rio Grande, no início de sua colonização era habitada por numerosas  tribos indígenas, os ditos naturais. De acordo com Mariz; Suassuna (2002:53) “As terras da antiga Capitania do Rio Grande eram habitadas, no litoral, pelos Potiguaras, Pitiguaras ou Petiguaras, do grupo dos Tupis, espalhavam–se pela região entre os rios Paraíba e Jaguaribe”. Foram com esses grupos que o colonizador a priore manteve o primeiro contato, um grupo de característica mais afável, gentil e de fácil relacionamento o qual os mesmos ao se depararem com o estranho e novo se deixavam aproximar, em troca de presentes, prática bastante comum desde 1500 e retribuíam da mesma forma ofereciam a seus visitantes redes, comidas, bebidas (cauim) e até suas mulheres, claro com o desdobrar do contato. O que não significa que as relações deste período fossem ainda iniciadas de forma tão primária, de certa forma ainda sim, mas também havia outras formas de trocas nesse instante, poder-se-ia dizer política, o indígena do século XVII sabia o que o homem branco desejava,, seus antepassados já haviam vivido essa experiência no passado.
            Com a tomada da cidade pelos holandeses (flamengo em algumas passagens da obra) a cidade de Natal passou por um processo de modificações espacial e cotidiana, o símbolo da colonização portuguesa teve seu nome trocado, como destacado por Mariz; Suassuna, 2002 de Fortaleza dos Reis Magos para Forte de Ceulem  ou Keulem a Igreja Matriz católica (Nossa Senhora da Apresentação), teve sua torre campanário (sino) destruída e a cidade de Natal passou a ser denominada de Nova Amsterdã e o povo da cidade apavorado se submeteu ao poderio flamengo sem resistência. Mas para se dominar um grupo necessita-se de contingente para o exercito, caso não haja deve-se busca de qualquer forma, no caso os grupos nativos eram os “recrutados”, com promessas de posse do bem mais valioso deste período, a terra, sem ela não se garante outro bem ainda mais precioso, ou melhor, um direito, o da sobrevivência.
            A forma mais comum era dominar esses naturais com novas promessas, no caso da Capitania do Rio Grande, especificamente a promessa veio com um bônus como descreve Herôncio, 1980 a libertação do chefe de um grupo dos Tapuias, o Jaguarari (também chamado de principal) aprisionado nos calabouços da Fortaleza dos Reis Magos pelos portugueses por 8 (oito) anos, era comum se denominar os grupos indígenas pelo seu principal (chefe, cacique) no caso, eram os Jaguararis, este etnônimo [3]denominava todo o grupo e assim foi com outros grupos, por exemplo: Canindés, Potis, Tupis, etc. No que diz respeito à colonização pode-se afirmar que todo gentio [4], por conseguinte é também bárbaro? Lembremos que ambos os conceitos foram elaborados pelos europeus para designar o outro que não compartilhava de sua religião e costumes (pagãos[5]), portanto, avesso culturalmente falando, era um olhar de um único viés dos que aqui chegaram sem serem convidados.



[3] Etnônimo - sm (etno+ônimo) - Palavra que designa uma raça, um povo, os habitantes de algum lugar; termo étnico, gentílico.
[4] Gentio - adj+sm (gente+io) 1 Que, ou quem segue o paganismo. 2 Que, ou o que não é civilizado. sm pop Grande quantidade de gente.
[5] Pa.gão - adj (lat paganu) 1 Relativo ao paganismo ou politeísmo. 2 Adepto do paganismo. 3 Diz-se de toda religião ou pessoa que não seja cristã nem judaica. sm 1 O que segue uma religião nativa, não cristã nem judaica, caracterizada pelo politeísmo e pela superstição. 2 Pessoa não batizada, ou que não segue o catolicismo. Fem: pagã. Pl: pagãos.


Um bárbaro pode ser construído ou se nasce? Barbarismo para quem observa de um único ângulo montado em uma estrutura de poder que o legitima a partir de uma perspectiva de um único viés ressona sem retorno de eco. Deve-se questionar, matar por terra e tesouro ou morrer em luta por um propósito de certa forma se defendendo, é ser bárbaro no sentido lato da palavra: sinônimo de cruel e animalesco? Se matar o outro por julgar diferente é justificável, então o europeu praticava com maestria há séculos, e aqui recém-chegados (Brasil) a partir de 1500-30 não foi diferente. Será que doar roupas infectadas com varíola que exterminavam tribos inteiras não seria uma forma de barbarismo?
Os nativos poderiam também serem considerados mártires, no que se refere à morte de forma cruel, devido à aplicação de práticas que poderiam ser consideradas as primeiras armas biológicas? Este texto tem o intuito de levantar questionamentos no que diz respeito à História do Rio Grande do Norte que foi elaborada e construída de forma a satisfazer os interesses de grupos elitizados que tinham a ideia de deixar uma “História Oficial” e inquestionável. De acordo com Cascudo apud Mariz e Suassuna (2002: 52) “Em três séculos toda essa gente desapareceu. Nenhum centro resistiu, na paz às tentações d’aguadente, às moléstias contagiosas, as brutalidades rapinantes do conquistador. Reduzidos foram sumindo misteriosamente”. 






Aula de campo disciplina: História Indígena, comunidade São Francisco, Baia da Traição - PB Cacique Natan, representante dos  remanescentes do grupo Potiguaras.  Vídeo: Raimundo Hélio da Silva, versão: mp4 (celular). Sábado, 24 de maio de 2014.





  


      Como se pode observar os remanescentes do grupo potiguaras não "desapareceram misteriosamente" como descreveu o referenciado historiador,  mas se retraíram para garantir a sobrevivência adentrando as profundezas do território, versão não diferente da História do restante do Brasil que foi centralizada no Sudeste como se o país fosse uma homogeneidade, assim oficializando a historiografia do Brasil em uma unicidade nacional e pautada no litoral sem enfatizar as áreas mais desconhecidas das terras colonizadas, os chamados sertões[6].



[6] Sertão-sm 1 Região interior, longe da costa e de povoações. 2 Reg (Nordeste) Zona do interior brasileiro, mais seca do que a caatinga. 3 Floresta longe da costa; selva.




COMO REFERENCIAR ESTE TEXTO:
R. H. da Silva. Genti(o)l ou bárbaro? Natal-RN. 2014

LENDO MAIS A RESPEITO:

INTERIORIZAÇÃO DA COLONIZAÇÃO PORTUGUESA E A "GUERRA DOS BÁRBAROS". Disponível em: http://www.cerescaico.ufrn.br/mneme/pdf/mneme6_10/mneme/cd_mneme/rnnaweb/interiorizacao.htm. Acesso em: 06 de set. de 2014.

LINKANDO SABERES:



https://www.youtube.com/watch?v=9-rrGR6b9Pk : Acesso em: 11 de set. de 2014.

MUSEU CÂMARA CASCUDO: EXPOSIÇÃO "ÍNDIOS: OS PRIMEIROS BRASILEIROS"

 Enedereço: Av. Hermesda Fonseca, 1398 - Petrópolis - Natal- RN. Tel. (84) 3342-4903

A exposição é aberta para todos os públicos, de terça à sexta, das 09h às 17h, e no sábado das 13h às 17h

O valor de entrada é de R$ 2,00 (inteira), exceto para grupos de escolas públicas com visitas agendadas, idosos acima de 60 anos e crianças com até 6 anos, que não pagam entrada.




REFERÊNCIAS

ALMEIDA, Regina Celestino de. “O lugar dos índios na história: dos bastidores ao palco”. In: _________. Os índios na História do Brasil. Rio de Janeiro: FGV, 2010, pp. 13-28.

ALMEIDA, Regina Celestino de. Anchieta e os índios em Iperoig: reflexões sobre suas relações a partir da noção de cultura histórica. Revista de Ciências Sociais, Fortaleza, vol. 29, n. ½, 109-119, 1998.

BÁRBAROS O MUNDO EM TRANSIÇÃO. Disponível em: <http://guiadoestudante.abril.com.br/aventuras-historia/barbaros-mundo-transicao-434552.shtml>. Acesso em: 26 de agos.2014.

GENTIO. DICIONÁRIO ONLINE. Disponível em: <http://michaelis.uol.com.br>. Acesso em: 26 de agos. de 2014.

GERONAZZO. Soraya. MURO DO DEMÔNIO. Violenta resistência indígena dificultou a colonização do sertão nordestino. Portugal penou até o extermínio completo dos “bárbaros” tapuias. 2009. Disponível em: <http://www.revistadehistoria.com.br/secao/artigos-revista/muro-do-demonio> . Acesso em: 26 de agos. de 2014.

FERNANDES, Florestan. "Antecedentes indígenas: organização social das tribos tupis". In: Holanda, Sérgio Buarque (org.). História geral da civilização brasileira. Rio de Janeiro: Difel, vol. I, 1976, p. 72-86.

HERÔNCIO, Paulo. Os Holandeses no Rio Grande. Natal – RN. Editora:  Carlos Lima. 1980.

HISTÓRIA DA ERA GLACIAL. Disponível em: <http://www.suapesquisa.com/pesquisa/eraglacial.htm>. Acesso em: 26 de agos. de 2014.

LEMOS. Vicente de; Medeiros. Tarcísio. Capitães-Mores e governadores do Rio Grande do Norte. 2º Vol. (1701-1822). Edição: IHGB/RN. 1980.

MARIZ. Marlene da Silva; SUASSUNA. Luiz Eduardo B. Os donos da terra: Os Povos Indígenas. In. _________História do Rio Grande do Norte. Natal (RN) 2002. p. 52.

MARIZ. Marlene da Silva; SUASSUNA. Luiz Eduardo B. O Massacre de Cunhaú e o de Uruaçú. In. _________História do Rio Grande do Norte. Natal (RN) 2002. p. 86.


sábado, 6 de setembro de 2014

Fortaleza dos Reis Magos

Extraído: <https://blogger.googleusercontent.com/img/b/R29vZ2xl/AVvXsEhbTcNQ8JNxBNNxNPx40OGI0t8ttkjr9GxXvks_Q763EFobQz10Aa_70Z56AXG_JqSqR-ylAdbmh2Hy4rpfuw9dnut4SmGpLdssfFR7JxOyzmD9gTEyI3be-z7KBM6IP1t0ofn3U0KosnVH/s1600/fortaleza-dos-reis-magos.jpg>.

Entre o Potengi e o Atlântico, é erguido o marco inicial da cidade de Natal, a Fortaleza dos Reis Magos. Construída pelos portugueses, em 1598, recebeu esse nome em função da sua construção ter se iniciado no dia 06 de janeiro, comemoração do dia de reis (calendário católico). Foi fundada em 25 de dezembro de 1599.
Invadida pelos holandeses no século XVII, permaneceu sob seu domínio de 1633 até 1654, quando os portugueses retomaram a posse da cidade, e consequentemente, do Forte.
No século XIX, suas dependências serviram como prisão dos amolados na Revolução Pernambucana de 1817. Como aconteceu com André de Albuquerque Maranhão, líder do movimento no Rio Grande do Norte e proprietário de um grande engenho de açúcar, que faleceu nesse mesmo ano em uma das suas celas.
Tombada em 1949 como patrimônio histórico pelo IPHAN – Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional. Eleita no concurso As Sete Maravilhas Brasileiras da Revista Caras através de expressiva votação online como a segunda obra mais importante do país. Esteve sob a administração da Fundação José Augusto por mais de 40 anos, mas atualmente é gerida pelo IPHAN.

QUE TAL UM PASSEIO VIRTUAL PELA FORTALEZA DOS REIS MAGOS


Horário de funcionamento
a) Segunda-feira, terça-feira, sexta-feira, sábado e feriado: 8h às 16h.
b) Quarta-feira: 8h às 12h.
c) Quinta-feira: 12h às 16h.
d) Domingo: 9h às 16h.

Contato
Telefone(s): (84) 3211-3820 / 3201-0486 / 3221-3294 / 3211-6166.

E-mail: forte.reismagos.rn@iphan.gov.br.

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sábado, 23 de agosto de 2014

BOX: SELEÇÃO DE CONTEÚDOS HISTÓRICOS E HISTÓRIA LOCAL

   Seja no inicio de todo ano letivo ou no corre-corre do dia-a-dia e pelos mais diversos imprevistos temos que Selecionar os conteúdos para nossos alunos. É uma tarefa árdua tanto para professores iniciantes quanto para professores mais experientes. E para ajudar nesta missão escrevo o pôster de hoje (primeiro de muitos no nosso espaço Ensino de História Potiguar). Para facilitar nossas vidas o texto está dividido em perguntas e sugestões de respostas.

O que é Conteúdo Histórico?
Não há um consenso geral para responder está pergunta, pois a resposta é condicionada por questões de perspectivas do que é História. Mas de maneira geral podemos afirmar que mesmo com todas as variações conceituais é frequente a ideia de que é “tudo aquilo que se ensina, circunscrito à disciplina escolar História” (FREITAS, 2010). Com base nos Parâmetros Curriculares Nacionais para História  estes conteúdos são:
a)      Conceituais: História, Historicidade, Tempo, Passado, Duração, Continuidades e Descontinuidades, Processo Histórico, Sujeito Histórico, Memória, Cultura, Sociedade, Politica, Identidade e Cidadania.
b)      Procedimentais: Informar e informar-se, comunicar-se, expressar-se, argumentar logicamente, aceitar ou rejeitar argumentos, manifestar preferências, apontar contradições, fazer uso adequado de diferentes nomenclaturas, de diferentes códigos e de diferentes meios de comunicação, compreender processos naturais, sociais e tecnológicos, interpretar manifestações culturais e artísticas, fazer avaliações quantitativas e qualitativas, em termos práticos, éticos e estéticos, equacionar e enfrentar problemas pessoais ou coletivos, participar socialmente, de forma solidária, ser capaz de elaborar críticas ou propostas.
c)      Atitudinais: valores sociais democráticos como Cidadania, Solidariedade, Responsabilidade, Autonomia, Organização entre outros.
De acordo com as leis complementares 10.639 de 2003 e 11.645 de 2008, respectivamente, é obrigatório em toda a Educação Básica o ensino do Conteúdo de Cultura e História afro-brasileira, africana e indígena.
Por que Selecionar o Conteúdo Histórico?
No vasto e profundo oceano que é a História é impossível dar conta de toda sua extensão seja para explicar, transmitir ou construir Conhecimento Histórico. Diante da impossibilidade de ministrar tudo (embora alguns ainda tentem heroicamente) e a obrigação social de ensinar o Conteúdo é necessário então Selecionar.
Como Selecionar Conteúdo Histórico?
Só é possível fazer a Seleção a partir de critérios. Quanto mais variados os critérios mais complexo os Conteúdo Selecionados.
Quais os Critérios de Seleção?
Os Critérios devem ser de dois aspectos complementares e indissociáveis: Históricos e Pedagógicos.
Os critérios Históricos:
d)      A Função Social da História (a partir da concepção de História que o Historiador possui ): a finalidade de se aprender História, seus possíveis usos, o Sujeito Histórico que se deseja construir. – Use questões para se nortear: Por que ensinar História? Como eu e meu aluno poderemos usar este conteúdo? Que tipo de Sujeito Histórico pretende construir?
e)      O Método Histórico: os problemas, problemáticas, fontes e interpretações disponíveis para atender a Função Social da História. – Use questões para se nortear: Quais os problemas históricos que afligem a comunidade escolar na qual estou inserido? Que problemáticas criar a partir dos problemas históricos que afligem a comunidade escolar na qual estou inserido? Que fontes estão disponíveis para estas problemáticas? Que interpretações são possíveis e quais são validas aos interesses da comunidade escolar na qual estou inserido?
Os critérios Pedagógicos:
a)      A Comunidade Escolar: a situação social, econômica, política de todos os que compõem a escola (pais, alunos, professores, demais colaboradores e vizinhança) – Use questões para se nortear: Qual (is) a(s) classe(s) social (is) que frequentam a escola? Quais os interesses dela (s)? Qual o poder aquisitivo da Comunidade? Qual o regime político que a Comunidade adota?
b)      O Alunado: idade, gênero, orientação sexual, classe social, mídias utilizadas, poder aquisitivo – Use questões para se nortear: Qual a clientela que frequentam a escola? Quais os interesses dela? Qual o poder aquisitivo? Que mídias utilizam com maior frequência?
Por que História Local?
Diante dos critérios expostos acima a opção pela História Local parece ser o mais recomendável. Este recorte espacial e ou epistemológico é adequado por ser o espaço de vida e atuação do próprio aluno “estabelecendo-se, assim, os elos indispensáveis entre História e vida como modo de fazer com que o estudo de História, mais do que aquisição de conhecimentos, seja, para o estudante, a descoberta da sua condição de sujeito/agente, construtor do Processo Histórico” (NEVES, 2000). A proximidade entre o objeto histórico e a experiência de vida dos estudantes faz com que durante o processo de ensino-aprendizagem eles façam História enquanto estudiosos e agentes do processo.
Quando bem administrado a abordagem da História Local oportuna uma metodologia que interliga ensino e pesquisa, possibilitando, a construção do Conhecimento Histórico.  A História Local a partir de suas problemáticas, ao contrário da tradicional História Universal, tem como referencial um sujeito real em sua vivência concreta e não a generalidade de um aluno ideal em um mundo virtual capitaneado nos PCNs.
A opção pela História Local em nada prejudica o aluno ou a sua formação para o mundo (no sentido de escala espacial), pois o local está inserido no recorte mais amplo. O local é uma parte recortada de um todo que interage com e sobre ele (mundo), com suas similaridades e peculiaridades, rupturas e permanências, convergindo e divergindo simultaneamente. A História Local exige uma complexificação do olhar, pensar e interagir. É pensar no macro , agir no micro dialeticamente.
A História Local (História Potiguar) tem que sair do box dos livros, aulas, programas de cursos e disciplinas e passar a ocupar o merecido lugar no roll do Conhecimento Histórico.
COMO REFERENCIAR ESTE TEXTO: OLIVEIRA NETO, Cláudio Correia de. Box: seleção de Conteúdos Históricos e História Local. Parnamirim: 23 ago. 2014.

REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS
BEZERRA, Holiem Gonçalves. Ciências Humanas e suas Tecnologias – História. Disponível para download em file:///C:/Users/Convidado/Downloads/11Historia%20(1).pdf
FREITAS, Itamar. Conteúdos e progressão dos conteúdos no ensino de História (1). Nossa Senhora do Socorro: 2 jan. 2010.<http://itamarfo.blogspot.com/2011/01/conteudos-e-progressao-dos-conteudos-no.html>.
NEVES, Joana. Perspectivas do Ensino de História: desafios político-educacionais e historiográficos. In: OLIVEIRA, Margarida M. Dias de. (Org.). Contra o consenso – LDB, DCN, PCN e reformas no ensino.  João Pessoa: ANPUH-PB – Ed. Sal da Terra, 2000.
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