Poliana
C. Martins S. D.
Ao discorrermos acerca da condição feminina no medievo
nos deparamos com um fato deveras lamentável, pois ao falar das mulheres neste
período e sendo o ofício do historiador baseado em documentos e empiria, não se
ter relatos provenientes das mesmas. E ainda lamentável, que as fontes das
quais dispomos venham de uma classe especificamente, de elevadas camadas da
sociedade medieval, de início, da classe cavalheiresca, e em finais da Idade
Média, da burguesia das cidades. Fontes estas dotadas de influência e deformação
das informações (Zuber). Mesmo diante de tais obstáculos, de tal fraqueza
documental, o historiador realiza um esforço maior para se aproximar destas que
tiveram suas vozes abrandadas.
Diante de todo esse silêncio involuntário, e mesmo
sabendo tratar-se de uma questão de seu tempo e espaço, podemos nos aproximar,
mesmo que minimamente, da triste condição imposta ao sexo feminino e ainda
assim ouvi-las através de todo esse cerco que lhes envolve, que lhes poda,
limita, mesmo assim é possível ouvi-las
e vê-las, aos poucos tomando o espaço que há muito deveria ser seu. Não é a toa
que tenha havido toda uma mobilização masculina para mantê-las sob seu comando,
mesmo deste modo, elas punham medo, receio, chamada de traiçoeiras, colocando
em risco toda uma reputação, em se tratando de duas famílias.
O lugar ocupado pelas mulheres no medievo, ao menos no
ideal de seu tempo, é junto à família, primeiramente sob a custódia do homem
mais próximo no parentesco – pai, irmão, entre outros – e logo mais à sua
família adquirida através do matrimônio. O objetivo imposto a mulher é o de
casar-se e procriar, dar herdeiros e continuidade a linhagem da família.
Pode-se pensar, ao menos hoje, que a mulher era uma moeda de troca, pois, ela,
além de se guardar e se preparar com a finalidade de um casamento,
preferencialmente um bom casamento, ela tinha um papel apaziguador e
conciliador entre famílias brigadas, por guerras ou não, isso é claro, numa
classe mais abastada, nobre, a qual
obtemos maiores informações. Ela poderia significar um patamar mais elevado
para uma classe aristocrática, quando esta (tal família) se encontrava em
falência, claramente uma troca, de um lado uma família aristocrática com um
nome significativo dentro daquela sociedade, de outro um homem (ou família) que
ascendeu economicamente e se quer reconhecido e se inserir pela sociedade
dominante. Mesmo não tendo a voz devida, não se pode dizer que a mulher não
teve um papel importante, mesmo diante de toda uma dominação masculina. Diante
de algumas dificuldades, a exemplo a “caristia” do dote, a moça se via a cair
de sua elevada posição social, não só em relação ao nome mas ao poder aquisitivo da família em que se
encontrava através do matrimônio, como a mulher era criada para casar e
procriar, sua família de parentesco sanguíneo próximo se via com um peso a ter
de se livrar em dado momento, tendo esta que se casar com o partido que lhe
fosse encontrado, tendo de conviver muitas vezes, em condições menos elevadas
que as de costume. Há em certo momento do medievo, um processo involutivo das
condições financeiras das mulheres, que antes tinham seu próprio dote e podia
usá-lo, passa a não ter nenhum, apenas o que é dado ao seu esposo e sendo este
a parte que lhe cabe da herança de sua família patriarcal, quando viúvas não
poder repassar sua riqueza a mais ninguém, sua autonomia econômica era
extremante limitada ou inexistente.
O uso de seu corpo e seus bens é muito claro, o que ela
leva consigo ao matrimônio não é de seu domínio, seu corpo é vigiado e controlado
para um fim, o de dar herdeiros àquela família a qual passara a pertencer.
A angustia clerical para com o sexo é tamanha, impondo
todo um conjunto de regras que limitem o uso de seus corpos e prazeres, havendo
um temor muito maior sobre tal questão, lhe impondo a finalidade apenas de
continuação de linhagem, mesmo que estes quebrassem com suas próprias regras a
cerca do sexo feminino. Assim como para os demais do sexo masculino, que eram
cercados de desconfiança, receio, tomados por uma angustia, sensação de
autoridade doméstica mal sucedida, aspecto de grande valor ao homem medieval.
Tal caráter duvidoso atribuído ao sexo feminino era ainda maior e visto com
maus olhos e mesmo imbuídos de total desconsideração daquelas que se viam em
condições fora de um ambiente familiar, seja qual for o motivo, estas não se
viam bem alocadas dentro de tal sociedade. Infidelidade masculina era
aceitável, mesmo que não fosse adequada, porém ao sexo feminino era
inconcebível, mesmo se esta sofrera injustiças, por ainda mais ironia do
“destino”, eram julgadas e excluídas de um ambiente comum da sociedade “ideal”.
Prazeres, autonomia, posição, consideração, esses itens eram desconhecidos ou
distantes ao feminino.
Restando-lhes o ambiente doméstico familiar, preenchidos
com atividades próprias de sua educação, como fiação e costura, a tomar conta
de seu ameaçador tempo e até mesmo contribuindo – anonimamente? – para a
economia familiar, compondo seu sustento. A condição feminina na Idade Média
foi de fato alvo de discussões, de múltiplas justificações, não foi de modo
algum uma condição aceita pacificamente, de um modo ou de outro foi indagada,
questionada, ou mesmo rejeitada. Mesmo não ouvindo-as diretamente, essa noção
não nos é negada, diante dos fatos contidos nas fontes e das coerentes
suposições próprias de um historiador.
Referências
DUBY, Georges. O casamento
na sociedade da alta idade média ______in:
Idade Média, idade dos homens: do
amor e outros ensaios. Tradução: Jonas Batista Neto. São Paulo: Companhia
das Letras, 1989. p. 11-27.
ZUBER, Christiane Klapisch.
A mulher e a família.
