terça-feira, 23 de setembro de 2014

A condição feminina no medievo

Poliana C. Martins S. D.
           
            Ao discorrermos acerca da condição feminina no medievo nos deparamos com um fato deveras lamentável, pois ao falar das mulheres neste período e sendo o ofício do historiador baseado em documentos e empiria, não se ter relatos provenientes das mesmas. E ainda lamentável, que as fontes das quais dispomos venham de uma classe especificamente, de elevadas camadas da sociedade medieval, de início, da classe cavalheiresca, e em finais da Idade Média, da burguesia das cidades. Fontes estas dotadas de influência e deformação das informações (Zuber). Mesmo diante de tais obstáculos, de tal fraqueza documental, o historiador realiza um esforço maior para se aproximar destas que tiveram suas vozes abrandadas.

            Diante de todo esse silêncio involuntário, e mesmo sabendo tratar-se de uma questão de seu tempo e espaço, podemos nos aproximar, mesmo que minimamente, da triste condição imposta ao sexo feminino e ainda assim ouvi-las através de todo esse cerco que lhes envolve, que lhes poda, limita,  mesmo assim é possível ouvi-las e vê-las, aos poucos tomando o espaço que há muito deveria ser seu. Não é a toa que tenha havido toda uma mobilização masculina para mantê-las sob seu comando, mesmo deste modo, elas punham medo, receio, chamada de traiçoeiras, colocando em risco toda uma reputação, em se tratando de duas famílias.   
            O lugar ocupado pelas mulheres no medievo, ao menos no ideal de seu tempo, é junto à família, primeiramente sob a custódia do homem mais próximo no parentesco – pai, irmão, entre outros – e logo mais à sua família adquirida através do matrimônio. O objetivo imposto a mulher é o de casar-se e procriar, dar herdeiros e continuidade a linhagem da família. Pode-se pensar, ao menos hoje, que a mulher era uma moeda de troca, pois, ela, além de se guardar e se preparar com a finalidade de um casamento, preferencialmente um bom casamento, ela tinha um papel apaziguador e conciliador entre famílias brigadas, por guerras ou não, isso é claro, numa classe mais abastada, nobre,  a qual obtemos maiores informações. Ela poderia significar um patamar mais elevado para uma classe aristocrática, quando esta (tal família) se encontrava em falência, claramente uma troca, de um lado uma família aristocrática com um nome significativo dentro daquela sociedade, de outro um homem (ou família) que ascendeu economicamente e se quer reconhecido e se inserir pela sociedade dominante. Mesmo não tendo a voz devida, não se pode dizer que a mulher não teve um papel importante, mesmo diante de toda uma dominação masculina. Diante de algumas dificuldades, a exemplo a “caristia” do dote, a moça se via a cair de sua elevada posição social, não só em relação ao nome  mas ao poder aquisitivo da família em que se encontrava através do matrimônio, como a mulher era criada para casar e procriar, sua família de parentesco sanguíneo próximo se via com um peso a ter de se livrar em dado momento, tendo esta que se casar com o partido que lhe fosse encontrado, tendo de conviver muitas vezes, em condições menos elevadas que as de costume. Há em certo momento do medievo, um processo involutivo das condições financeiras das mulheres, que antes tinham seu próprio dote e podia usá-lo, passa a não ter nenhum, apenas o que é dado ao seu esposo e sendo este a parte que lhe cabe da herança de sua família patriarcal, quando viúvas não poder repassar sua riqueza a mais ninguém, sua autonomia econômica era extremante limitada ou inexistente.
            O uso de seu corpo e seus bens é muito claro, o que ela leva consigo ao matrimônio não é de seu domínio, seu corpo é vigiado e controlado para um fim, o de dar herdeiros àquela família a qual passara a pertencer.
            A angustia clerical para com o sexo é tamanha, impondo todo um conjunto de regras que limitem o uso de seus corpos e prazeres, havendo um temor muito maior sobre tal questão, lhe impondo a finalidade apenas de continuação de linhagem, mesmo que estes quebrassem com suas próprias regras a cerca do sexo feminino. Assim como para os demais do sexo masculino, que eram cercados de desconfiança, receio, tomados por uma angustia, sensação de autoridade doméstica mal sucedida, aspecto de grande valor ao homem medieval. Tal caráter duvidoso atribuído ao sexo feminino era ainda maior e visto com maus olhos e mesmo imbuídos de total desconsideração daquelas que se viam em condições fora de um ambiente familiar, seja qual for o motivo, estas não se viam bem alocadas dentro de tal sociedade. Infidelidade masculina era aceitável, mesmo que não fosse adequada, porém ao sexo feminino era inconcebível, mesmo se esta sofrera injustiças, por ainda mais ironia do “destino”, eram julgadas e excluídas de um ambiente comum da sociedade “ideal”. Prazeres, autonomia, posição, consideração, esses itens eram desconhecidos ou distantes ao feminino.

            Restando-lhes o ambiente doméstico familiar, preenchidos com atividades próprias de sua educação, como fiação e costura, a tomar conta de seu ameaçador tempo e até mesmo contribuindo – anonimamente? – para a economia familiar, compondo seu sustento. A condição feminina na Idade Média foi de fato alvo de discussões, de múltiplas justificações, não foi de modo algum uma condição aceita pacificamente, de um modo ou de outro foi indagada, questionada, ou mesmo rejeitada. Mesmo não ouvindo-as diretamente, essa noção não nos é negada, diante dos fatos contidos nas fontes e das coerentes suposições próprias de um historiador.



Referências

DUBY, Georges. O casamento na sociedade da alta idade média ______in:  Idade Média, idade dos homens: do amor e outros ensaios. Tradução: Jonas Batista Neto. São Paulo: Companhia das Letras, 1989. p. 11-27.
ZUBER, Christiane Klapisch. A mulher e a família.


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