GENTI(L)O OU BÁRBARO?
“[...] Nos deram espelhos. Vimos um mundo doente.
Tentei
chorar, mas não consegui [...]” – Renato Russo
Raimundo Hélio
da Silva
Graduado em
História Licenciatura – UFRN
Graduando em História Bacharelado - UFRN
Graduando em História Bacharelado - UFRN
E-mail:
raimundo.helio@bol.com.br
A teoria da dispersão
Beringia seria uma das que mais se defende, a qual teria dado origem aos grupos
humanos americanos do norte e do sul, obviamente em especial os homens
localizados no espaço do que seria posteriormente denominado de Brasil.
O presente trabalho não
está focado em fazer uma retrospectiva de como o homem povoou o planeta e sim
saltando no tempo, especificamente entre os séculos XVI e XVII (1597-1654),
neste Novo Mundo de vasto litoral o que se denominou posteriormente de Nordeste
Brasileiro, destaque para um espaço específico a Capitania do Rio Grande. A colonização da Capitania do Rio Grande
teve seu início por volta de 1597 quando a cidade de Natal passou a existir
oficialmente no papel conforme decreto do Rei de Portugal Felipe II, questão
que posteriormente seria debatida por Cascudo em a História da Cidade do Natal
(1947), mas, esta é outra História. No momento o foco é analisar um pouco do
que tem produzido a respeito dos nativos que aqui habitavam os donos da terra, cuja aproximação do
colonizador é bastante questionada, mas era o modelo praticado pelos europeus
para justificar a posse e a povoação do Novo Mundo, para cristianizar e explorar os
recursos naturais.
O que se pretende
discutir é como este pedaço de terra nova
foi desbravado e a que preço? Diferenças culturais às vezes entram em choque e
o resultado de tamanha diferença na maioria das vezes, é o confronto no momento
do contato, primeiro: o de línguas depois o mais questionado, o religioso. O
“bárbaro[1]”
não se deixava assimilar, o resultado é a guerra. Segundo Geronazzo (2009). “Se
existe uma guerra justa, há de ser aquela travada contra o próprio demônio. E
era uma guerra assim que os portugueses acreditavam estar lutando nos sertões
brasileiros.” Se é que se pode justificar uma guerra tão desigual belicamente
falando, flechas contra canhões e arcabuzes[2]? Quem venceria a guerra?
[1].Bárbaro
- bár. ba.ro - adj (gr bárbaros) 1 Relativo aos bárbaros, povos antigos. 2 Que
não tem civilização; inculto, rude, grosseiro. 3 Atroz, brutal, desumano,
cruel.
[2] Arcabuz
- ar.ca.buz : sm Forma antiga de arma de fogo portátil, de fecho de mecha,
inventada nos meados do século XV, que se disparava apoiada sobre uma
forquilha, à qual era fixada com um gancho (haken).
Durante o Domínio Holandês (1633-1654), a
Capitania do Rio Grande, no início de sua colonização era habitada por numerosas
tribos indígenas, os ditos naturais. De
acordo com Mariz; Suassuna (2002:53)
“As terras da antiga Capitania do Rio Grande eram habitadas, no litoral, pelos
Potiguaras, Pitiguaras ou Petiguaras, do grupo dos Tupis, espalhavam–se pela
região entre os rios Paraíba e Jaguaribe”. Foram com esses grupos que o
colonizador a priore manteve o primeiro contato, um grupo de característica mais afável, gentil e de fácil
relacionamento o qual os mesmos ao se depararem com o estranho e novo se deixavam aproximar, em troca de presentes,
prática bastante comum desde 1500 e retribuíam da mesma forma ofereciam a seus
visitantes redes, comidas, bebidas (cauim) e até suas mulheres, claro com o
desdobrar do contato. O que não significa que as relações deste período fossem
ainda iniciadas de forma tão primária, de certa forma ainda sim, mas também
havia outras formas de trocas nesse instante, poder-se-ia dizer política, o indígena do século XVII sabia o que o homem branco desejava,, seus antepassados já haviam vivido essa
experiência no passado.
Com a tomada da cidade pelos
holandeses (flamengo em algumas passagens da obra) a cidade de Natal passou por
um processo de modificações espacial e cotidiana, o símbolo da colonização
portuguesa teve seu nome trocado, como destacado por Mariz; Suassuna, 2002 de
Fortaleza dos Reis Magos para Forte de Ceulem
ou Keulem a Igreja Matriz católica (Nossa Senhora da Apresentação), teve
sua torre campanário (sino) destruída e a cidade de Natal passou a ser
denominada de Nova Amsterdã e o povo da cidade apavorado se submeteu ao poderio
flamengo sem resistência. Mas para se dominar um grupo necessita-se de
contingente para o exercito, caso não haja deve-se busca de qualquer forma, no
caso os grupos nativos eram os “recrutados”, com promessas de posse do bem mais
valioso deste período, a terra, sem ela não se garante outro bem ainda mais
precioso, ou melhor, um direito, o da sobrevivência.
A forma mais comum era dominar esses
naturais com novas promessas, no caso da Capitania do Rio Grande, especificamente
a promessa veio com um bônus como
descreve Herôncio, 1980 a libertação do
chefe de um grupo dos Tapuias, o Jaguarari (também chamado de principal)
aprisionado nos calabouços da Fortaleza dos Reis Magos pelos portugueses por 8
(oito) anos, era comum se denominar os grupos indígenas pelo seu principal (chefe, cacique) no caso, eram os Jaguararis, este etnônimo [3]denominava todo o grupo e
assim foi com outros grupos, por exemplo: Canindés, Potis, Tupis, etc. No que
diz respeito à colonização pode-se afirmar que todo gentio [4],
por conseguinte é também bárbaro? Lembremos que ambos os conceitos foram elaborados
pelos europeus para designar o outro que não compartilhava de sua religião e
costumes (pagãos[5]),
portanto, avesso culturalmente falando, era um olhar de um único viés dos que
aqui chegaram sem serem convidados.
[3]
Etnônimo - sm (etno+ônimo) - Palavra que designa uma raça, um povo, os
habitantes de algum lugar; termo étnico, gentílico.
[4] Gentio - adj+sm (gente+io) 1 Que, ou
quem segue o paganismo. 2 Que, ou o que não é civilizado. sm pop Grande
quantidade de gente.
[5] Pa.gão -
adj (lat paganu) 1 Relativo ao paganismo ou politeísmo. 2 Adepto do paganismo.
3 Diz-se de toda religião ou pessoa que não seja cristã nem judaica. sm 1 O que
segue uma religião nativa, não cristã nem judaica, caracterizada pelo politeísmo
e pela superstição. 2 Pessoa não batizada, ou que não segue o catolicismo. Fem:
pagã. Pl: pagãos.
Um
bárbaro pode ser construído ou se
nasce? Barbarismo para quem observa de um único ângulo montado em uma estrutura
de poder que o legitima a partir de uma perspectiva de um único viés ressona sem retorno de eco. Deve-se
questionar, matar por terra e tesouro ou morrer em luta por um propósito de
certa forma se defendendo, é ser bárbaro no
sentido lato da palavra: sinônimo de cruel e animalesco? Se matar o outro por
julgar diferente é justificável, então o europeu praticava com maestria há
séculos, e aqui recém-chegados (Brasil) a partir de 1500-30 não foi diferente.
Será que doar roupas infectadas com varíola que exterminavam tribos inteiras
não seria uma forma de barbarismo?
Os
nativos poderiam também serem considerados mártires,
no que se refere à morte de forma cruel, devido à aplicação de práticas que
poderiam ser consideradas as primeiras armas biológicas? Este texto tem o
intuito de levantar questionamentos no que diz respeito à História do Rio Grande
do Norte que foi elaborada e construída de forma a satisfazer os interesses de
grupos elitizados que tinham a ideia de deixar uma “História Oficial” e
inquestionável. De acordo com Cascudo apud Mariz e Suassuna (2002: 52) “Em três
séculos toda essa gente desapareceu. Nenhum centro resistiu, na paz às
tentações d’aguadente, às moléstias contagiosas, as brutalidades rapinantes do
conquistador. Reduzidos foram sumindo misteriosamente”.
Aula de campo disciplina: História Indígena, comunidade São Francisco, Baia da Traição - PB Cacique Natan, representante dos remanescentes do grupo Potiguaras. Vídeo: Raimundo Hélio da Silva, versão: mp4 (celular). Sábado, 24 de maio de 2014.
Como se pode observar os remanescentes do grupo potiguaras não "desapareceram misteriosamente" como descreveu o referenciado historiador, mas se retraíram para garantir a sobrevivência adentrando as profundezas do território, versão não diferente da História do restante do Brasil que foi centralizada no Sudeste como se o país fosse uma homogeneidade, assim oficializando a historiografia do Brasil em uma unicidade nacional e pautada no litoral sem enfatizar as áreas mais desconhecidas das terras colonizadas, os chamados sertões[6].
[6]
Sertão-sm 1 Região interior, longe da costa e de povoações. 2 Reg (Nordeste)
Zona do interior brasileiro, mais seca do que a caatinga. 3 Floresta longe da
costa; selva.
LENDO MAIS A RESPEITO:
MUSEU CÂMARA CASCUDO: EXPOSIÇÃO "ÍNDIOS: OS PRIMEIROS BRASILEIROS"
Enedereço: Av. Hermesda Fonseca, 1398 - Petrópolis - Natal- RN. Tel. (84) 3342-4903
COMO REFERENCIAR ESTE TEXTO:
R. H. da Silva.
Genti(o)l ou bárbaro? Natal-RN. 2014
LENDO MAIS A RESPEITO:
INTERIORIZAÇÃO
DA COLONIZAÇÃO PORTUGUESA E A "GUERRA DOS BÁRBAROS". Disponível
em: http://www.cerescaico.ufrn.br/mneme/pdf/mneme6_10/mneme/cd_mneme/rnnaweb/interiorizacao.htm.
Acesso em: 06 de set. de 2014.
LINKANDO
SABERES:
https://www.youtube.com/watch?v=9-rrGR6b9Pk : Acesso em: 11 de set. de 2014.
MUSEU CÂMARA CASCUDO: EXPOSIÇÃO "ÍNDIOS: OS PRIMEIROS BRASILEIROS"
Enedereço: Av. Hermesda Fonseca, 1398 - Petrópolis - Natal- RN. Tel. (84) 3342-4903
A exposição é aberta para todos os públicos, de terça à sexta, das 09h às 17h, e no sábado das 13h às 17h
O valor de entrada é de R$ 2,00 (inteira), exceto para grupos de escolas públicas com visitas agendadas, idosos acima de 60 anos e crianças com até 6 anos, que não pagam entrada.
REFERÊNCIAS
ALMEIDA,
Regina Celestino de. “O lugar dos índios na história: dos bastidores ao palco”.
In: _________. Os índios na História do Brasil. Rio de Janeiro: FGV, 2010, pp.
13-28.
ALMEIDA,
Regina Celestino de. Anchieta e os índios em Iperoig: reflexões sobre suas
relações a partir da noção de cultura histórica. Revista de Ciências Sociais,
Fortaleza, vol. 29, n. ½, 109-119, 1998.
BÁRBAROS O MUNDO EM TRANSIÇÃO. Disponível em: <http://guiadoestudante.abril.com.br/aventuras-historia/barbaros-mundo-transicao-434552.shtml>.
Acesso em: 26 de agos.2014.
GENTIO. DICIONÁRIO ONLINE. Disponível
em: <http://michaelis.uol.com.br>.
Acesso em: 26 de agos. de 2014.
GERONAZZO.
Soraya. MURO DO DEMÔNIO. Violenta
resistência indígena dificultou a colonização do sertão nordestino. Portugal
penou até o extermínio completo dos “bárbaros” tapuias. 2009. Disponível em: <http://www.revistadehistoria.com.br/secao/artigos-revista/muro-do-demonio>
. Acesso em: 26 de agos. de 2014.
FERNANDES,
Florestan. "Antecedentes indígenas: organização social das tribos
tupis". In: Holanda, Sérgio Buarque (org.). História geral da civilização brasileira. Rio de Janeiro: Difel,
vol. I, 1976, p. 72-86.
HERÔNCIO,
Paulo. Os Holandeses no Rio Grande.
Natal – RN. Editora: Carlos Lima. 1980.
HISTÓRIA DA ERA GLACIAL. Disponível em:
<http://www.suapesquisa.com/pesquisa/eraglacial.htm>. Acesso em: 26 de
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LEMOS.
Vicente de; Medeiros. Tarcísio. Capitães-Mores
e governadores do Rio Grande do Norte. 2º Vol. (1701-1822). Edição:
IHGB/RN. 1980.
MARIZ.
Marlene da Silva; SUASSUNA. Luiz Eduardo B. Os donos da terra: Os Povos
Indígenas. In. _________História do Rio
Grande do Norte. Natal (RN) 2002. p. 52.
MARIZ.
Marlene da Silva; SUASSUNA. Luiz Eduardo B. O Massacre de Cunhaú e o de Uruaçú.
In. _________História do Rio Grande do
Norte. Natal (RN) 2002. p. 86.
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