A MORTE DA IDADE MÉDIA
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Raimundo Hélio da Silva
Graduado em História Licenciatura- UFRN
Graduando em História bacharelado - UFRN
Graduando em História bacharelado - UFRN
Camilla Kaciane
Graduada em História - UFRN
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Na Idade Média, a vida dos homens é regida pelo poder absoluto de um único Deus, o Deus cristão, que é uma conjugação dos deuses pagãos. O cristianismo não é puro de origem, sua alma tem uma essência judaica.
No medievo, a história humana é resultado da vontade divina. Assim, tudo deve passar pelo crivo da Igreja. Todos os comportamentos medievais eram advertidos como pecaminosos, o corpo era visto como receptáculo do pecado, dessa forma, tudo que dava prazer ao corpo era considerado impuro, impróprio.
Por isso, a figura feminina é desprezada. Visto que, o corpo feminino é associado ao pecado, desvio. Alguém precisava ser responsabilizado pelo pecado original, e nesse momento “Eva” cumpre esse papel. O fato é que, numa sociedade patriarcal como a do medievo, há uma inferioridade feminina. As mulheres precisam de um modelo, e é aqui que nasce o culto mariano, a exaltação a figura de Maria.
O declínio da arte nessa época, por exemplo, das esculturas, se deu justamente porque a imagem do belo não era algo que interessava a Igreja. A arte vai ser utilizada unicamente por um caráter social, como forma de evangelização.
Era preciso então se manter fiel ao cristianismo. A salvação se dava pela rejeição ao efêmero, transitório, mundano. A felicidade terrena era desprezível e a eternidade representava a felicidade maior. No mundo medieval então, o medo da morte vai ser algo inexistente. A morte é algo corriqueiro, cotidiano. A morte não é sinal de finitude.
1. A MORTE NÃO É O FIM
Desde os tempos mais remotos o homem convive com seus medos, que os acompanham nos momentos mais insólitos, momentos que ficaram gravados em sua memória, e se replicam nos seus descendentes.
Entre tantos medos, o maior deles seria o momento do Juízo Final, este enigmático instante, derradeiro, imaginado e nunca vivido, que tanto o homem adia. Mas, no seu íntimo o anseia. O consolo da morte é sem dúvida abrandado pela espera e a promessa de ser o escolhido.
Durante vários períodos da história, a humanidade confrontou esses momentos de temores e incertezas. Faz parte desses períodos a Idade Média, o meio termo temporal, não por acaso, mas, pelo fato de pontuar um momento de indecisões e de esperas. Como afirmou Franco Júnior, “Uma noite de 1000 anos!”. É nesta escuridão milenar que o medo toma forma. Não antes sem um julgamento justo!
Para os medievais, diferentemente do que acreditavam os gregos, a memória após a morte se torna “alma” que percorrerá muito caminhos árduos.
2. JULGAMENTO DERRADEIRO: MIL ANOS DE ESPERA
A espera da redenção é longa e inquietante, muitos obviamente não viram e nem verão o dia tão esperado, mil anos de depósito em uma poupança sem muitas garantias de recolher o total aplicado com juros, essa usura era bem vinda e permitida.
A Igreja como fiadora pregava que a única garantia de um paraíso só podia ser dada a quem pagasse as prestações cuja moeda era à obediência incondicional, à fé no Deus único, onipotente, onipresente e onisciente, pobreza, caridade e a prática de seus dogmas sem questionamento, um preço razoável a seu ver para quem almejava o perdão de seus pecados e a vida eterna no paraíso.
Nas épocas em que a Europa passava por uma superlotação devido à expansão dos povos estrangeiros ditos “bárbaros”, cada indivíduo que nascia era uma boca a mais para alimentar, só depois é claro, que a dispensa do senhor dono da terra fosse abastecida, esta era a prioridade.
Jamais a Europa esteve tão unida quanto nos séculos XII e XIII, e essa unidade devia-se ao fato de os europeus daquele tempo tinham o sentimento de construir um só povo, o povo cristão, o qual, no plano institucional, era enquadrado por dois poderes superiores de controle: o do papa e o imperador (DUBY, 1998: 67).
Nesse momento, o homem europeu convivia com vários medos: o medo do outro homem, do estrangeiro, de quem tinha religião diferente da católica, o medo do judeu, do mulçumano, o medo da fome, do além, de não ser o escolhido na hora do juízo, o medo da danação eterna no inferno.
Mas, nenhum o atormentava tanto quanto o medo das “pestes”.
Segundo Duby, muitas afecções eram denominadas como peste, entre elas a lepra e a peste negra (peste bubônica).
A epidemia determinou uma elevação geral do nível de vida. Ela livrou a Europa de um aumento de população. Durante meio século, a peste permaneceu no estado endêmico, com retornos em quatro ou cinco anos, até por volta de 1400, quando o organismo humano finalmente desenvolveu anticorpos que lhe permitiram resistir. A cada trégua, a vida recomeçava ainda com mais intensidade. [...] O macabro instala-se na literatura e na arte. Propagam-se imagens trágicas, o tema do esqueleto, da dança macabra. A morte está em toda parte (DUBY, 1999: 86-87).
A Igreja soube se utilizar dessa situação muito bem, para ela foi excelente, um ótimo exemplo de punição para os infiéis, o que poderia ter sido uma desgraça tornou-se sinônimo de equilíbrio, de tempos em tempos há um aumento populacional até que vem um ceifeiro e faz seu trabalho para manter os pratos da balança horizontais e equilibrados.
3. A DECANTAÇÃO DOS PECADOS: PARAÍSO OU INFERNO, O MEIO TERMO, O NASCIMENTO DO PURGATÓRIO (SÉCULO XII)
Partindo do “Princípio da dualidade” que indaga o homem há vários séculos nas suas decisões, comparações e opções de escolha, tudo tem o seu oposto para dar significado à existência ou a aniquilação dos correlatos. Para Heráclito de Éfeso, século V a.C., o princípio se baseia na dialética, “[...] segundo a qual tudo no mundo se autodestrói a partir de seu contrário, o bem se opondo ao mal, a saúde à doença, a riqueza se opondo à pobreza, a vida diante da morte”. Segundo Le Goff:
O além é um dos grandes horizontes das religiões e das sociedades. A vida do crente transforma-se quando ele pensa que nem tudo fica perdido com a morte. [...] Foi como terceiro lugar que o purgatório se impôs. Das religiões e das civilizações anteriores, o cristianismo herdara uma geografia do além; tal - o shéol judaico - e as noções de um universo depois da morte, um assustador e o outro ventuoso, como o Hades e os Campos Elísios dos Romanos, ele escolherá o modelo dualista [...] (1995: 16-18).
Dessas primícias dialéticas eclodiu na doutrina cristã a partir do século XII um meio termo, um centro imaginário que poderia levar a outras periferias (paraíso ou
inferno), mas, antes haveria o Juízo Final, o julgamento justo para os merecedores e para outros nem tanto, os gozos e prazeres infinitamente inimagináveis que o vivente terreno jamais faria concepção em seu âmago de um lugar paradisíaco o qual todas as dores, ausências, fomes, sedes e desarmonias sua, inclusive dos seus inimigos mortais seriam aplacadas e saciadas, afinal, todos seriam criaturas de um mesmo Criador, portanto, irmãos. Contrapondo este Paraíso, o seu correlato, o submundo, o mundo inferior, o Inferno.
CONSIDERAÇÕES FINAIS
Numa sociedade como a medieval, a Igreja dita às regras do jogo. Os indivíduos terão opiniões comuns em relação à morte e ao além. Como afirma Le Goff, “A realidade é a cristandade. É em função dela que o cristão da Idade Média define o resto da humanidade e se situa em relação aos outros” (1983: 179). Era preciso explicar aos vivos o sentido de sua morte.
Com a ascensão da cristandade, a Igreja se introduz entre o indivíduo, a família e a cidade. O clero afirma ser o grupo mais capaz de preservar a memória dos mortos. Uma sólida doutrina cristã sobre o além, pregada pelo clero, esclarece os vivos sobre o sentido da morte do defunto. As celebrações tradicionais no cemitério permanecem habituais, porém já não bastam. Oferendas, no momento da eucaristia, garantem que durante as orações o nome dos mortos seja lembrado em toda a comunidade cristã apresentada como a mais vasta parentela artificial do crente. Festas anuais oferecidas em memória dos mortos e em benefício de suas almas – oferecidas, como sempre, em favor dos pobres [...]. Pois, a igreja, e não mais a cidade, celebra a glória dos desaparecidos. E, uma vez introduzida no recinto da basílica, a democracia do pecado estende-se para além do túmulo de modo inconcebível para os pagãos (ARIÈS; DUBY, 2002: 272).
É necessário inverter a perspectiva tradicional, aquele período histórico em que costumeiramente é de forma pejorativa visto como símbolo de obscurandade, trevas, um momento pacato, sem desenvolvimento: a Idade Média, deve ser esquecido como tal, para ser lembrado como uma etapa no surgimento e afirmação do Ocidente cristão.
REFERÊNCIA BIBLIOGRÁFICA
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