domingo, 4 de setembro de 2016

“DA PASSAGEM DO SENHOR JESUS NO MUNDO”: O ARQUIVO METROPOLITANO DA ARQUIDIOCESE DE NATAL (2006-2016)

Por Cláudio Correia de Oliveira Neto
Historiador Licenciado- UFRN
Técnico de Nível Médio Integrado em Controle Ambiental- IFRN
correia.claudio@rocketmail.com
ARQUIVOS ECLESIASTICOS
Os Arquivos Eclesiásticos, ou Arquivos Religiosos, ou Arquivos da Igreja, são o conjunto de documentos produzidos ou recebidos por instituições religiosas, sendo de natureza privada. Estes arquivos são grandes fontes de informação por conterem documentos relativos a nascimentos, casamentos, óbitos, dentre inúmeras outras informações que contribuem para a pesquisa de diversas áreas e setores interessados da sociedade.
            A documentação pertencente a Igreja traz em si toda a complexidade da instituição. Cabendo então aqui destacar algumas características que facilitem a compreensão acerca dos Arquivos Eclesiásticos. Primeiro é importante notar a vastidão temporal do cristianismo católico que já existe há mais de dois mil anos, dando a ele um experiência temporal em relação as questões humanas incomparável. Segundo, é relevante observar também as diferentes escalas que a Igreja atua, ela é ao mesmo tempo global e local. A vasta temporalidade e espacialidade do catolicismo dá a ele uma visão distinta sobre o homem e a sociedade. Além disso um outro aspecto que dele se ressalta é a simultaneidade dos aspectos políticos, sociais, econômicos e religiosos. Por uma questão metodológica as pesquisas cientificas sempre privilegiam um dos aspectos citados, contudo na visão da Igreja tudo isso está imbricado e em muitos casos são indissociáveis. O elo conector é a espiritualidade, a missão de salvação universal a faz se inserir em todas as classes e aspectos da vida. Não podemos perder de vista o caráter místico da instituição e de sua documentação, pois só assim podemos compreender, por exemplo, os motivos que levam a Igreja a sacrificar alguns de seus interesses em prol de sua missão.   
            A estrutura eclesiástica também é um ponto relevante para compreender a produção documental dos Arquivos Eclesiásticos. A Igreja é una e diversa, ou seja, embora constitua uma unidade institucional, dentro de si a uma multiplicidade de grupos e interesses que em alguns pontos convergem e divergem. É uma Igreja em Cristo com vários modelos possíveis de serem que coexistem institucionalmente. E cada uma destes paradigmas agira no mundo a partir de seu projeto e intepretação sobre a vivência católica, sem que com isso se desvincule da Santa Sé. Mas isto só é possível pois no regime hierárquico da instituição é permitida uma liberdade autárquica, que serve para alcançar ao maior e mais diversos públicos possíveis, na lógica da salvação universal e propagação da mensagem de Cristo.
            Na ótica teológica os Arquivos Eclesiásticos também possuem uma pastoral, que é um conjunto de atividades que a Igreja realiza no intuito de dá continuidade as ações de cristo na terra. O papa Paulo VI em sua Alocução aos arquivistas eclesiásticos em 26 de setembro de 1964 deixa claro que a missão espiritual dos arquivos é o de registrar a passagem do senhor Jesus no mundo. E deixa claro que a preservação documental é uma maneira de culto ao Cristo. A documentação é um rastro de Jesus Cristo que serve a um proposito evangelizador e uma referência temporal para as ações da Igreja. 
É na luz desse entendimento que o Código de Direito Canônico (CDC) coloca como obrigação a disponibilização do acervo para consulta. Há um entendimento que a memória coletiva, a memória institucional e a memória individual se cruzam nos Arquivos Eclesiásticos, e que portanto é de interesse coletivo o livre acesso a documentação. Porém por se tratar de uma instituição privada há uma demanda por selecionar o que é de público e o que é de acesso privado e secreto. Embora o CDC estabeleça critérios e normas, cabe ao Arcebispado determinar o que será disponibilizado ao público geral, o que coloca uma série de avaliações subjetivas e interpretações. Auxiliando neste processo de seleção a lei n. 8.159, de 08 de janeiro de 1991, art. 16 coloca que devido à importância social e histórica da documentação guardada pela Igreja, os registros civis de arquivos e entidades religiosas produzidos anteriormente à vigência do Código Civil - implantado nos primeiros anos da República, cabendo a Igreja, no Império, a responsabilidade de registrar de forma identitária a população em seus livros – ficam identificados como de interesse público e social.
HISTÓRIA DO ARQUIVO METROPOLITANO DA ARQUIDIOCESE DE NATAL
A Igreja Potiguar na segunda metade do século XX passa por uma experiência sui generis que modifica todo o pensamento católico. Tal mudança estava alinhada com as ideias progressistas da Santa Sé como um todo no plano internacional. A produção historiográfica que estuda a Igreja desse momento histórico afirma que durante o período há a consolidação e amadurecimento da Igreja Popular. Neste recorte temporal a Igreja Brasileira é apontada como a mais progressista. Graças as experiências acumuladas no período anterior há uma ação mais assertiva e delimitada em relação à política. O constante embate interno entre reformistas, progressistas e conservadores no seio da Igreja que marcou as décadas de 1950 e 1960 dá lugar a uma harmonia de forças entre os grupos que compõem a instituição religiosa. Há também um combate explicito entre o Regime Militar e Igreja que ocorreu no período de 1964-1972.  A pressão de Roma e do Conselho Episcopal Latino-Americano (CELAM) faz com que um conjunto de teólogos brasileiros delimitem melhor a relação da Igreja com a Política A conclusão teológica daquele momento histórico era apoiada na Doutrina Social da Igreja, que afirmava que o papel da Igreja na Política era promover a Educação Política das massas, ou seja, deveria encorajar a mudança e a participação popular sem assumir o controle do processo. À medida que ocorria a abertura política e instituições democráticas (Ordem dos Advogados do Brasil, Associação da Impressa do Brasil e etc) se fortaleciam, dando uma polifonia contra a Ditadura, a Igreja se envolvia menos diretamente na política, fortalecendo a sociedade civil.
É nesse contexto sócio históricos que Natal vira protagonista com o  Movimento de Natal (1943-1964) que é a primeira iniciativa da igreja no enfrentamento prático as desigualdade socais;  as experiência das  Irmãs Vigárias (1964), primeira vez na história do catolicismo que mulheres assumem a gestão de paróquias;  a Campanha da Fraternidade (1965); o Programa de Educação Política (1972-1988), que tenta construir uma nova cultura política no Rio Grande do Norte entre tantas outras iniciativas. Todo esse rico processo deu origem a um belo acervo que foram se acumulando ao longo do tempo sem serem organizados.
É no ano de 2006 que a Arquidiocese de Natal firma um convênio com o Departamento de História da Universidade Federal do Rio Grande do Norte, com o objetivo de organizar e disponibilizar ao público. O primeiro passo foi a realização de um diagnóstico que apontou para as péssimas condições de guarda documental. Em seguida começou a fase de higienização documental, descrição documental e uma reforma no espaço físico. Durante está etapa o Arquivo Metropolitano da Arquidiocese de Natal (AMAN) começou a receber bastante material, o que fez com que a higienização só fosse concluída em 2013. Nos anos de 2014 e 2015 começou a classificação e ordenação da documentação que se encontra no momento em fase final.
O Arquivo Metropolitano da Arquidiocese de Natal conta com um rico e vasto acervo documental sobre ação da Arquidiocese de Natal no auxílio a comunidades carentes. A documentação abrange as atividades administrativas, pastorais e eclesiásticas com recorte temporal que vai de 1889 até 2010, livros de registro dos séculos 17 -19, e a coleção dos periódicos do Jornal “A Ordem” e “L'Observatorie Romano” das décadas de 1930-1960.  São documentos de diversas tipologias e que registram a atuação da Igreja, numa média de 350 mil documentos, distribuídos em 628 caixas-arquivos.
ESTRUTURA FÍSICA DO AMAN
            O espaço físico do AMAN é composto de sala de consulta, sala suja (área de limpeza documental) e o arquivo em si.
DESAFIOS DA GESTÃO DOCUMENTAL NO AMAN
            Os desafios da Gestão Documental no Arquivo Metropolitano da Arquidiocese de Natal são muitos, a começar pela falta de Recursos Humanos para dá conta da extensão do acervo e concluir o trabalho de organização. Outra questão é a dificuldade de integração dos setores da Cúria Metropolitana da Arquidiocese de Natal, tendo em vista que eles trabalham de forma hierárquica porém independentes. Há ainda uma dificuldade de implantação de um política interna de valorização do AMAN, que ainda é visto com um local a parte da instituição. Outro obstáculo é atrair público para consultar o acervo, algo que ajuda a dá visibilidade e a valorizar o setor. Existe também por parte de alguns membros da Igreja de verem o trabalho realizado no AMAN enquanto uma pastoral.

LOCALIZAÇÃO E AGENDAMENTOS:
O ARQUIVO SE ENCONTRA NO SUBSOLO DA CATEDRAL METROLITANA DE NATAL , AVENIDA DEODORO DA FONSECA, TIROL, NATAL, RIO GRANDE DO NORTE. FUNCIONA DE SEGUNDA A SEXTA DAS 8:00- 12:00 E DAS 13:00-17:00. AGENDAMENTO DE PESQUISAS E VISITAS PELO TELEFONE: (84) 36152800

BIBLIOGRAFIA
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COMO REFERENCIAR ESTE TEXTO:
OLIVEIRA NETO, Cláudio Correia de. “Da passagem do Senhor Jesus no Mundo”: O Arquivo Metropolitano da Arquidiocese de Natal (2006-2016). Natal, 03 set. 201